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REVISTA RURAL DO BRASIL
Tráfico de minhocuçus (junho 2006)
         O mercado ilegal de minhocuçus como isca para pescaria é muito expressivo e sustenta famílias carentes que vivem da captura e venda destas espécies nativas ameaçadas de extinção. Novas técnicas de criação em cativeiro podem preservar as compridas minhocas de dois metros de comprimento.
         Assustador e grande como os dois metros que atingem as compridas minhocas brasileiras também se qualifica o comércio que as vende como iscas para captura de peixes maiores por todo o Brasil. Exemplares das diversas espécies nativas de minhocuçu — o sufixo açu na língua indígena exprime grandeza — que vivem principalmente no interior de São Paulo, Vale do Paraopeba em Minas Gerais e diversas micro-regiões do Mato Grosso são indiscriminadamente extraídos da natureza e, por isto, inseridos na atulhada lista de animais que correm severos riscos de extinção. O IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) é conhecedor do tráfico do minhocuçu, e mesmo muito timidamente — a forma com que suas forças o possibilitam fiscalizar — tem reprimido a captura das espécies nativas brasileiras, respaldado na Lei de n. 9605 de 12/02/98 / Artigo 29: “comete crime quem vende, expõe à venda, exporta ou adquire, guarda, tem em cativeiro ou deposita, utiliza ou transporta ovos, larvas ou espécimes da fauna brasileira nativa ou em rota migratória, bem como produtos e objetos dela oriundos, provenientes de criadores não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente”. Casos isolados de repressão da captura do minhocuçu têm sido notificados. O julgamento por extração de quatro deles por pescadores mineiros ganhou fama e cobertura por toda a mídia nacional pela demora de conclusão do processo que envolvia uma causa inusitada e, à primeira vista, sem expressão. Depois de 677 dias de trâmite, anulou-se a acusação por considerar que a conduta dos culpados não tinha o poder de agredir a fauna.
         Os minhocuçus nem sempre chegam aos pescadores por quem os extraiu da terra. Como todo comércio demasiadamente explorado, o do minhocuçu também envolve atravessadores, rendendo-lhes lucros formidáveis: os donos de lojas de artigos de pesca, proprietários de pousadas e hotéis pesqueiros revendem a isca por até quatro vezes mais o preço que pagam aos minhoqueiros, o nome com que são conhecidos os camponeses que coletam até 20 dúzias da isca viva diariamente. Há também empresas firmadas e especializadas em comercializar os minhocuçus, que as remetem para todo o Brasil e esporadicamente também aos países estrangeiros. Sevem-se de transportadoras aéreas e rodoviárias que, mesmo recebendo os minhocuçus em caixas perfuradas que caracterizam a embalagem de carga viva, não lhes exigem a documentação específica para a remessa deste tipo de mercadoria, o GTA (Guia de Trânsito Animal): um certificado emitido por secretarias do governo federal de defesa animal que traz as informações sobre o trânsito animal (a espécie, a idade, a procedência, a sanidade, a finalidade e o meio de transporte).
         Talvez o Vale do Paraopeba, próximo da capital mineira, hospede o mais intenso comércio dos minhocuçus de todo o Brasil, anunciado sem acanhamentos por numerosas placas e até outdoors. Dezenas de postos de venda abertos 24 horas de qualquer dia, nem sempre precários e rústicos, vendem minhocuçus á margem direita de um trecho da rodovia que liga Rio de Janeiro à Brasília, aos pescadores que transitam rumo à represa pesqueira do Rio São Francisco. Mas os comerciantes paraopebenses nem sempre sabem que atuam clandestinamente. Quando interrogados sobre a possibilidade de estarem contribuindo para dizimação de um ser vivo — a espécie de minhocuçu autóctone do vale é o Rhinodrilus fafner —, o depoimento de um dos vendedores revela e representa o quanto a desinformação prevalece por lá: “ — a gente pode vender minhocuçu porque não é animal silvestre. Ele não tem osso e é mole”. O desconhecimento se estende às pessoas que deveriam colaborar com a coibição da extração clandestina dos minhocões. Em um outro testemunho, um morador que também se sustentava com o comércio das iscas, manifestava a gratidão pelo então prefeito da cidade por sua “boa ação” de permitir que pessoas da região entrassem em sua fazenda para arrancar minhocuçus, antes que as terras fossem preparadas para a formação de pastagens.
         Os altos preços praticados pelo comércio do minhocuçu, talvez por ser ilícito, conferem rentabilidade singular e muito inferior à das atividades convencionais do meio rural: dependendo da estação do ano que influencia a disponibilidade do minhocuçu e a permissão de pesca, a dúzia da isca pode custar até R$20,00. Um único atravessador do minhocuçu chega a faturar R$3750,00 a cada semana vendendo cerca de 12600 unidades aos postos de revenda no mesmo período.
         As tentativas de criar o minhocuçu em cativeiro para minimizar o risco de sua dizimação e acrescentá-lo ao grupo de minhocas comerciais são válidas, mas esbarram em algumas propriedades que dificultam a exploração racional: seus casulos exigem período de incubação extenso, são pouco prolíficos e atingem à maturidade sexual com delonga. Até o momento, a adaptação fora de seu hábita tem obstado o êxito da criação desta espécie de minhoca que rejeita substratos distintos de onde originalmente são extraídos e neles somente sobrevivem "fechados" por até alguns meses, sem a caracterização de estarem sendo criados. A minhoca gigante africana (Eudrilus eugeniae) tem propriedades que atendem às exigências de um bom engodo para pesca, é uma espécie alóctone, ou seja, é originária de regiões estrangeiras e, como tal, é permitida sua criação em nosso país. A difusão do uso desta espécie como isca para pesca é importante ecologicamente por se colaborar com a preservação dos minhocuçus, transformando em criadoras da isca alternativa as famílias que têm o comércio do minhocuçu como o principal ganha-pão.
         A empresa tem se esforçado em preservar os indefesos minhocuçus, tentando desenvolver técnica específica de criá-los em cativeiro e estabelecer projetos ecológicos que os excluam do tráfico para mantê-los sempre vivos.
Completamente desinformado de estar cometendo um tipo de crime ecológico, um dos inúmeros paraopebenses fazem da venda do minhocuçu mineiro uma forma de auto-sustento.
Dezenas de barracas permanecem abertas vinte e quatro horas de todos os dias para vender os minhocuçus aos numerosos pescadores transeuntes da rodovia federal que os leva até a represa do Rio São Francisco.
Mesmo com extrema dificuldade de mantê-los sobreviventes em cativeiro, a MINHOBOX vem tentando transformar o minhocuçu numa espécie explorável comercialmente.
Afrânio Augusto Guimarães – zootecnista / MINHOBOX
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ã Copirraite Afrânio Augusto Guimarães
Zootecnista Minhobox