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MINHOCA PARA SABIÁS
         Capturadas na natureza com destreza inata dos sabiás, as minhocas compõem a dieta principal e nutritiva dos filhotes da ave-símbolo brasileira.
         As minhocas são tão importantes na vida dos sabiás que correspondem muito mais do que simplesmente suas presas na cadeia alimentar. No processo evolutivo, esses pássaros desenvolveram meios sofisticados de captura e limpeza das minhocas. Exigem essas criaturas terrestres na dieta de seus filhotes para lhes assegurarem o melhor desenvolvimento e se estabelecem num determinado local conforme a disponibilidade do anelídeo.
         É impressionante como os sabiás se especializaram em capturar presas ocultas mesclando imponência, espreita e percepção. Caçando, um sabiá alterna a posição imóvel de cabeça erguida com o saltitar veloz e curto em direção ao esconderijo das minhocas. A elucidação dessa extrema faculdade inata dos sabiás em encontrá-las gera controvérsias. Presume-se, no entanto, que os sabiás usufruem da capacidade auditiva para desvendar minhocas e larvas escondidas na superfície do solo. A visão dessas aves, todavia, prevalece sobre qualquer outro sentido quando o alimento vivo estiver à vista.
         A faculdade inata do sabiá em capturar minhocas apóia-se em indicações visuais e auditivas. Com imponência, espreita e percepção, o pássaro alterna a posição imóvel de cabeça erguida com o saltitar veloz e curto em direção da presa.
         A defesa da minhoca tem pouca eficácia e implica na maioria das vezes em se esconder abruptamente do ávido sabiá quando percebe a ameaça. Se ainda assim, a cauda da minhoca restar à ave, dependendo da espécie, a presa pode se servir da autotomia, um dispositivo fisiológico que desprende a parte capturada do resto do corpo. A seção salva da minhoca pode se regenerar e perdurar a existência da espécie e, por conseguinte, perpetuar a fonte de alimento dos sabiás.          A disponibilidade de minhocas provavelmente exerce influência sobre a demografia de sabiás. Os centros urbanos, por exemplo, mesmo provendo de árvores frutíferas em hortas remanescentes, ruas e praças, não os acolheriam sem a ocorrência e disponibilidade de minhocas para alimentar seus filhotes.
         Um estudo canadense na década de noventa teve comprovações por meios indiretos do quanto as minhocas são imprescindíveis na dieta dos sabiás. O teor de DDT, o diclorodifeniltricloroetano usado na agricultura que contamina a fauna do solo, foi quantificado nos sabiás e em outras aves ocorrentes em pomares e jardins historicamente tratados com o inseticida agora proibido. A concentração do DDT encontrado nos tecidos dos sabiás e em seus ovos era expressamente superior à quantidade do agrotóxico não biodegradável registrada nos demais pássaros que não se alimentavam de minhocas. A comida contaminada gerou distúrbios reprodutivos e causaram mortalidade nos turdídeos.
         Alimentando pássaros cativos com minhocas de procedência conhecida, o criador lhes dá um alimento vivo extremamente palatável e nutricionalmente muito rico, suprindo a exigência por proteína composta por aminoácidos de extrema digestibilidade, fornecendo pigmentos naturais que dão vivacidade à plumagem e agindo como potente suplemento mineral e vitamínico, especialmente por disponibilizar o ferro e a vitamina B. Além disso, os pássaros jovens exercitam a motricidade, ao bicar, matar e ingerir um alimento que se mexe.
Uma câmera fixada sobre um ninho de sabiá filma e comprova como as minhocas são importantes na alimentação dos filhotes em seus primeiros dias de vida. O vídeo mostra o sabiá chegando com o bico cheio de minhocas e empurrando-as bico abaixo dos recém-nascidos.
         Na natureza, a época da nidificação dos sabiás coincide com a estação do ano em que a disponibilidade das minhocas aumenta. Nos meses chuvosos, a elevação da umidade no solo favorece a atuação e reprodução das minhocas, tornando-se mais numerosas. O intestino corresponde a setenta por cento do volume total do corpo da minhoca, quase sempre preenchido por terra e detritos a serem evacuados. Para remover essa excreta, o pássaro sabiamente se serve de uma prática que mitiga a possibilidade de fornecê-la à prole: primeiro perfura a minhoca capturada com o bico e a lança no chão por repetidas vezes, forçando a expulsão do conteúdo intestinal.
         Não raramente, o sabiá alimenta um filhote com numerosas minhocas, empurrando-as todas bico abaixo em uma única vez.
         O arraçoamento dos sabiás em criatórios deve ministrar umas cinco minhocas às aves adultas três vezes por semana e, diariamente, o dobro ao triplo dessa porção às fêmeas com filhotes. O expurgo das minhocas em câmara úmida desprovida de alimento por vinte e quatro horas é recomendável quando se asseguraria o esvaziamento do tubo digestivo sem lhes comprometer a sobrevivência.
         A farinha de minhocas, que nada mais é do que minhocas desidratadas, também pode compor a alimentação dos sabiás misturando-a à ração ou integrando a papa para filhotes. As minhocas expurgadas e descongeladas, preliminarmente desprezadas por alguns pássaros, têm exímia aceitação pelos sabiás à medida que ganham o hábito por ingestão dos exemplares mortos.
         Um registro constata o quanto os sabiás apreciam as minhocas. Num minhocário de cem metros quadrados, trinta e duas aves passaram esgaravatando o húmus em captura permanente pelo anelídeo durante quase todo um dia.

         No cativeiro, as minhocas podem compor a dieta dos sabiás adultos e filhotes de várias maneiras, sempre depois do expurgo que evacua o conteúdo intestinal: vivas, descongeladas ou em pó.
         A presença constante de funcionários e até da disposição de espantalhos não os afugentavam do criatório.
         A relação das minhocas com o símbolo da avifauna brasileira é tão evidente e estrita que lhes seriam de direito a menção nos entre-versos da célebre “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias: na mesma terra que tinha palmeiras, certamente viviam as minhocas adubando-as e alimentando os sabiás.
         Para atenderem à eminente demanda pela criação de sabiás-da-mata (Turdus fumigatus), os criadouros vêm aumentando o plantel de reprodutores. O Picinini, por exemplo, montou até um minhocário para nutrir os sabiás, especialmente na fase de reprodução, quando minhocas são imprescindíveis em suas dietas.
         Alimentando-se com minhocas vivas, o filhote exercita sua coordenação motora, ingere um alimento palatável e nutricionalmente muito rico, por suprir a exigência por proteína, fornecer pigmentos naturais e agir como potente suplemento mineral e vitamínico.
         As minhocas são muito apreciadas pelos turdídeos em geral: o sabiá-americano, (Turdus migratorius), por exemplo, é predador natural de Lumbricus terrestris, uma espécie típica de climas temperados que tem o hábito de perambular pela superfície do solo.
Afrânio Augusto Guimarães – zootecnista / MINHOBOX
Jornal da Minhoca - edição 48 - novembro de 2004
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ã Copirraite Afrânio Augusto Guimarães
Zootecnista Minhobox