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RURAL DO BRASIL Tráfico de minhocuçus (junho 2006) | ||||||
Os minhocuçus nem sempre chegam aos pescadores por quem os extraiu da terra. Como todo comércio demasiadamente explorado, o do minhocuçu também envolve atravessadores, rendendo-lhes lucros formidáveis: os donos de lojas de artigos de pesca, proprietários de pousadas e hotéis pesqueiros revendem a isca por até quatro vezes mais o preço que pagam aos minhoqueiros, o nome com que são conhecidos os camponeses que coletam até 20 dúzias da isca viva diariamente. Há também empresas firmadas e especializadas em comercializar os minhocuçus, que as remetem para todo o Brasil e esporadicamente também aos países estrangeiros. Sevem-se de transportadoras aéreas e rodoviárias que, mesmo recebendo os minhocuçus em caixas perfuradas que caracterizam a embalagem de carga viva, não lhes exigem a documentação específica para a remessa deste tipo de mercadoria, o GTA (Guia de Trânsito Animal): um certificado emitido por secretarias do governo federal de defesa animal que traz as informações sobre o trânsito animal (a espécie, a idade, a procedência, a sanidade, a finalidade e o meio de transporte). Talvez o Vale do Paraopeba, próximo da capital mineira, hospede o mais intenso comércio dos minhocuçus de todo o Brasil, anunciado sem acanhamentos por numerosas placas e até outdoors. Dezenas de postos de venda abertos 24 horas de qualquer dia, nem sempre precários e rústicos, vendem minhocuçus á margem direita de um trecho da rodovia que liga Rio de Janeiro à Brasília, aos pescadores que transitam rumo à represa pesqueira do Rio São Francisco. Mas os comerciantes paraopebenses nem sempre sabem que atuam clandestinamente. Quando interrogados sobre a possibilidade de estarem contribuindo para dizimação de um ser vivo — a espécie de minhocuçu autóctone do vale é o Rhinodrilus fafner —, o depoimento de um dos vendedores revela e representa o quanto a desinformação prevalece por lá: “ — a gente pode vender minhocuçu porque não é animal silvestre. Ele não tem osso e é mole”. O desconhecimento se estende às pessoas que deveriam colaborar com a coibição da extração clandestina dos minhocões. Em um outro testemunho, um morador que também se sustentava com o comércio das iscas, manifestava a gratidão pelo então prefeito da cidade por sua “boa ação” de permitir que pessoas da região entrassem em sua fazenda para arrancar minhocuçus, antes que as terras fossem preparadas para a formação de pastagens. Os altos preços praticados pelo comércio do minhocuçu, talvez por ser ilícito, conferem rentabilidade singular e muito inferior à das atividades convencionais do meio rural: dependendo da estação do ano que influencia a disponibilidade do minhocuçu e a permissão de pesca, a dúzia da isca pode custar até R$20,00. Um único atravessador do minhocuçu chega a faturar R$3750,00 a cada semana vendendo cerca de 12600 unidades aos postos de revenda no mesmo período. As tentativas de criar o minhocuçu em cativeiro para minimizar o risco de sua dizimação e acrescentá-lo ao grupo de minhocas comerciais são válidas, mas esbarram em algumas propriedades que dificultam a exploração racional: seus casulos exigem período de incubação extenso, são pouco prolíficos e atingem à maturidade sexual com delonga. Até o momento, a adaptação fora de seu hábita tem obstado o êxito da criação desta espécie de minhoca que rejeita substratos distintos de onde originalmente são extraídos e neles somente sobrevivem "fechados" por até alguns meses, sem a caracterização de estarem sendo criados. A minhoca gigante africana (Eudrilus eugeniae) tem propriedades que atendem às exigências de um bom engodo para pesca, é uma espécie alóctone, ou seja, é originária de regiões estrangeiras e, como tal, é permitida sua criação em nosso país. A difusão do uso desta espécie como isca para pesca é importante ecologicamente por se colaborar com a preservação dos minhocuçus, transformando em criadoras da isca alternativa as famílias que têm o comércio do minhocuçu como o principal ganha-pão. A empresa tem se esforçado em preservar os indefesos minhocuçus, tentando desenvolver técnica específica de criá-los em cativeiro e estabelecer projetos ecológicos que os excluam do tráfico para mantê-los sempre vivos. | ||||||
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Afrânio
Augusto Guimarães – zootecnista / MINHOBOX |