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Boletim da Minhoca

2 A's do substrato

  • 2 A's do substrato
  • Antes de serem oferecidos às minhocas, os resíduos orgânicos devem ser previamente transformados em Alimento e, sobretudo, em Ambiente.

Toda minhocultura criteriosa deve conduzir com excelência o tratamento prévio que se deve dar aos resíduos orgânicos antes de fornecê-los às minhocas. Muito mais do que somente gerar alimento para minhocas, este procedimento deve produzir um ambiente favorável à vida delas.

Para se transformar os resíduos orgânicos nos melhores alimento e ambiente de um substrato, a minhocultura deve imprescindivelmente se submeter a uma etapa preliminar em que se cria uma microfauna sapróbia: antes de ser um bom criador de minhocas, o minhocultor deve ser um excelente criador de microrganismos decompositores.

As práticas anteriores de preparo da matéria-prima que envolvem o enleiramento (organização em montes compridos), os revolvimentos (oxigenação e uniformização das leiras) e os umedecimentos (hidratação para se assegurar a vida das leiras), favorecem a manutenção e a procriação de uma microfauna que resulta na conversão dos melhores 2A's do substrato: a fermentação dos resíduos se estabiliza e a temperatura do material se iguala à do ambiente, a toxicidade original, especialmente dos estercos, se anula, as partículas se dimensionam uniformemente, tornando-se porosas e apreensíveis à ingestão de minhocas e o meio permanece rico em microrganismos, que são necessários à regularidade reprodutiva e digestiva das minhocas.

Os 2A's do substrato são indispensáveis às minhocas, mas possuem relevâncias distintas: na minhocultura, uma minhoca precisa muito mais do A de ambiente do que o A de alimento.

O substrato deve suprir as exigências nutricionais em favor do desenvolvimento, da reprodução e das funções fisiológicas básicas de uma minhoca. O sustento nutricional de uma minhoca provém essencialmente da porção de matéria orgânica contida no substrato ingerido. Considerando-se que as espécies adotadas na minhocultura são minhocas fundamentalmente detritívoras e classificadas, por isto, como epigéicas — grupo de minhocas que vivem nos extratos superiores do solo, onde os resíduos orgânicos são abundantes, como fezes de animais e folhas caídas em decomposição —, a disponibilidade elevada de matéria orgânica no substrato é imprescindível.

Muito antes de se deslocar em busca de alimento, uma minhoca procura por um ambiente que lhe dê conforto. Os deslocamentos de uma minhoca são determinados por fatores que, numa escala de importância, posiciona a fome nos patamares mais inferiores.

Esta exigência prioritária por ambiente em detrimento do requerimento por alimento é mais acentuada nestas espécies epigéicas, que correspondem às principais minhocas adotadas na minhocultura. Este grupo de minhocas se sustenta com poucas ingestões se comparado à classe de minhocas endogéicas que vivem nas camadas mais profundas do solo onde a matéria orgânica é escassa. Espécies endogéicas em plena atividade, como os minhocuçus, se alimentam continuamente para absorver o pouco de matéria orgânica contida no substrato que ingerem, constituído por terra e um pouco de matéria orgânica decomposta, lixiviada da superfície ou proveniente de raízes em putrefação. Na prática, percebe-se terra espirrando do corpo de uma minhoca endogéica quando é partida para ser enfiada num anzol, por exemplo. Espécies epigéicas, entretanto, apresentam o trato digestivo quase sempre esvaziado porque simples ingestões do substrato preferido por elas, rico em matéria orgânica, as mantém suficientemente alimentadas. Esta condição pode ser verificada na prática ao se observar transparecido pelo ventre o intestino quase nunca cheio da minhoca gigante-africana (Eudrilus eugeniae), por exemplo.

Em se considerando que a minhoca é coprófaga, isto é, que ela se alimenta de suas próprias fezes, que a matéria orgânica é o sustento nutritivo de uma minhoca e que apenas dez por cento dela é absorvido numa digestão, um substrato poderia suprir as exigências alimentares dela por dez ingestões, teoricamente. Entretanto, ao humificar um substrato, ou seja, ao ingeri-lo e excretá-lo na forma de pequenos coprólitos, a porosidade, que é a relação que há entre o volume de vazios e o volume total de substrato originado, se altera: o substrato ideal constituído por grânulos de diâmetro médio de dois centímetros se converte em húmus composto por partículas muito menores de formato esférico ou cilíndrico, variável conforme a espécie. Esta redução de volume ocasionado pela humificação, entretanto, compromete significativamente as condições de ambiente: um substrato comido ainda continuaria plenamente nutritivo, mas se torna num ambiente prejudicado e desfavorável à atividade das minhocas. Na prática, as minhocas mantidas num substrato humificado vão emagrecer, mesmo nele ainda havendo muito alimento.

A explicação é clara, considerando-se que a oxigenação das camadas de cima do solo é outra característica importante que influencia a fisiologia das espécies epigéicas: a redução de volume do substrato decorrente do consumo das minhocas decresce a porosidade, deixando o ambiente compacto e menos oxigenado. Nestas circunstâncias, a urina da minhoca composta por excretas nitrogenadas, que lhe são nocivas, se concentra e modifica a composição química do substrato, causando um desequilíbrio osmótico ao corpo da minhoca. Num meio saturado de amônia, uréia e creatinina, a minhoca perde o líquido celomático — o fluido que preenche todo o espaço que há entre a parede de seu corpo e o tubo digestivo — e, consequentemente, se definha. As adversidades geradas pelo substrato humificado se agravam porque, sem as habilidades de escavação das espécies endogéicas, os deslocamentos das minhocas epigéicas se tornam deficitários. Nesta situação: Alimento razoável e Ambiente ruim.

Levando-se em conta que o definhamento não fora causado pela fome, se um novo ambiente não for oferecido às minhocas, a sobrevivência no substrato humificado fica comprometida e a morte delas é inevitável. Além do fornecimento de um novo substrato, há a alternativa de se recondicionar o próprio substrato consumido, que ainda dispõe de alimento, para fazê-lo ganhar novamente um ambiente favorável: ao revolver este substrato manualmente ou com algum utensílio que não injurie as minhocas, os compostos nitrogenados se volatilizam e o meio reconquista a porosidade propícia. Nesta situação: Alimento e Ambiente razoáveis.

Este procedimento, entretanto, é paliativo e não deve entrar na rotina de práticas de uma minhocultura bem conduzida, já que o húmus deve ser recolhido para a comercialização e as minhocas devem receber as melhores condições de vida.

A falha muito recorrente na minhocultura é utilizar matéria-prima contendo terra, ainda que em porções pequenas. A porosidade se diminui, a facilidade de deslocamentos das minhocas se compromete e os danos de um substrato compactado, como o substrato humificado, por exemplo, se repetem. Nesta situação: Alimento razoável e Ambiente ruim.

O húmus que for produzido com terra se desqualifica porque a capacidade de fertilizante se reduz por conter porções significantes de silício, que não é adubo de planta. Como não há alternativas para a remoção da terra, a recomendação de uso deste tipo de húmus é usá-lo como ingrediente de formulações de substratos para jardinagem, como uma terra vegetal, por exemplo.

Um substrato mal decomposto que for fornecido precipitadamente às minhocas lhes traz hostilidades. Os gases e o calor gerados pela fermentação continuada no minhocário afugentam as minhocas para cantos do substrato mais oxigenados e com temperatura mais amena e podem matá-las. Paralelamente, o próprio resíduo orgânico ainda não decomposto pode ter faixas de pH extremas, distantes da neutralidade, e inassimiláveis pelas minhocas que se definham, tentam a fuga e podem morrer. Neste caso, o A de alimento e o A de ambiente são desfavoráveis. Nesta situação: Alimento e Ambiente ruins.

Esta situação é muito comum em vermicomposteiras caseiras em que as minhocas são mantidas no mesmo ambiente em que são depositados os resíduos orgânicos domiciliares e onde passam pela fermentação. As minhocas afugentadas que ainda não morreram se acumulam enoveladas em cantos das caixas porque encontraram nelas próprias um substrato provisório para se refugiarem e sobreviverem. Como este recurso delas é simplesmente atenuante, a morte seguinte é inevitável.

Uma alternativa ecológica e econômica de suinoculturas sofisticadas darem ao dejeto dos porcos é a conversão em biogás. O tratamento prévio do material para entrada no biodigestor prensa as fezes recolhidas por lavagem com água e gera um material sólido cheio de pelos dos animais. Este tipo de matéria-prima, depois de devidamente tratado, pode ser usado na minhocultura porque possui composição química muito rica, já que os suínos possuem pouca capacidade de absorção digestiva, e porosidade relevante, atribuída ao pelos misturados às fezes. Neste caso, o A de alimento e o A de ambiente são igualmente excelentes. Entretanto, a queratina, o principal componente dos pelos, se degrada muito dificilmente, não se decompõe no preparo da matéria-prima e tampouco se desfaz através da humificação das minhocas: os pelos atravessam intactos em ambas as etapas da minhocultura e se misturam ao húmus produzido. Como ainda não há formas de remoção dos pelos, este húmus se desqualifica e perde valor de mercado, mesmo sem afetar as propriedades de fertilizante dos excrementos das minhocas.

O esterco de vacas em lactação se constitui num dos melhores tipos de matéria-prima para a minhocultura porque se converte em substrato com rapidez e simplicidade e é nutricionalmente muito rico às minhocas. O nitrogênio, importante na reprodução das minhocas e que compõe os setenta e oito por cento de proteína da matéria-seca do corpo da minhoca, é um elemento químico abundante nas fezes das vacas que são alimentadas com dieta rica em proteína para produzirem o leite. Por se tratar de um animal ruminante, a vaca degrada com eficiência a fibra dos alimentos vegetais. Na minhocultura, esta condição facilita a decomposição prévia do seu esterco e a humificação seguinte pelas minhocas. Nesta situação: Alimento e Ambiente bons.

O esterco de eqüinos, muitas vezes equivocadamente condenado ao uso na minhocultura, pode abastecer um criatório de minhocas com êxito. Sendo pseudo-ruminantes e sem a eficácia de degradação digestiva dos bovinos, os cavalos produzem um tipo de esterco tipicamente fibroso. Sem a riqueza nutricional do esterco bovino, o substrato originado do esterco de cavalos tem a porosidade como característica marcante. Nesta situação: Alimento razoável e Ambiente bom.

O expurgo das minhocas é uma das etapas da fabricação da farinha que as mantém em jejum para a evacuação do tubo digestivo. Durante doze horas, as minhocas devem ser mantidas sobreviventes e sem a possibilidade de ingerirem algo para que o produto final consista em carne pura de minhocas desidratada. Um dos substratos que podem ser utilizados nesta etapa do processo são cubos umedecidos de esponja. Nesta situação: Alimento ruim e Ambiente bom.

O lodo de esgoto é o resíduo produzido por estações de tratamento que, embora possua a consistência pastosa, apresenta como características peculiares a riqueza em matéria orgânica e a abundância em microrganismos, fundamentais à reprodução de minhocas. Se tratado e misturado a agentes desagregadores, este resíduo se transforma num bom substrato. Nesta situação: Alimento e Ambiente bons.

 

 

O tratamento prévio da matéria-prima é imprescindível ao êxito de uma minhocultura. Selecionando bem os resíduos orgânicos, organizando-os em montes compridos, revolvendo-os periodicamente para oxigenar o material e umedecendo-os para assegurar a vida dos montes, o minhocultor favorece a manutenção e a procriação de uma microfauna que resulta na conversão dos melhores ambiente e alimento do substrato para minhocas detritívoras viverem.

 

 

Os 2A‘s do substrato são tão relevantes para a Minhobox que incitou o zootecnista da empresa a inserir uma seção sobre o tema durante os cursos realizados pela empresa. Durante o evento, o ministrante enfatiza a importância de se preparar a matéria-prima da minhocultura visando atender dois requisitos imprescindíveis, mas de relevância diferentes. Os procedimentos de transformação da matéria-prima devem gerar um substrato que se constitua em alimento, mas sobretudo em ambiente para minhocas. Na foto, o prelecionista interage com os cursistas, lhes pedindo para avaliarem tipos diferentes de substrato.

 

Os acúmulos de minhocas muito comuns em cantos das vermicomposteiras caseiras são consequencias por estarem submetidas a um alimento indisponível e, sobretudo, a um ambiente muito precário. Em meio aos resíduos orgânicos ainda em fermentação, as minhocas se ajuntam enoveladas e fazem delas próprias um substrato provisório para atenuarem as hostilidades dos resíduos em putrefação ainda inassimiláveis e que ainda geram calor e gases nocivos.

 

 

Na grande maioria dos casos, uma minhoca emagrece num substrato que lhe oferece um ambiente adverso, mas que dispõe de muito alimento. Um exemplo disto é um substrato humificado e, por isto, pouco poroso, que concentra excretas nitrogenadas geradas pela urina das próprias minhocas. Este acúmulo altera as condições químicas do substrato e provoca um desequilíbrio osmótico no corpo delas, fazendo com que percam o líquido celomático, se definhem e se apresentem como magras.

 

 

 

O sucesso da reprodução em minhocultura não se restringe à qualidade do alimento, mas, sobretudo, depende das condições favoráveis de ambiente. Se um substrato, mesmo rico em nitrogênio e em microrganismos, que assim é propício à reprodução, não for poroso para proporcionar encontros de minhocas e favorecer o alinhamento de seus poros sexuais durante a cópula, a produção de casulos fica comprometida.

 

 

Alimento e ambiente num substrato são imprescindíveis às minhocas, mas possuem relevância diferentes: muito antes de procurar por alimento, uma minhoca busca prioritariamente por ambiente confortável. A técnica de transferência simplificada das minhocas entre os colchões que compõem o sistema industrial de minhocultura horizontal contempla esta premissa: além de afugentadas pela claridade, as minhocas se transferem em busca do substrato mais úmido do colchão receptor.

 

 

Afrânio Augusto Guimarães – zootecnista / MINHOBOX
Jornal da Minhoca - edição 79 - junho de 2018
Atualizada em setembro de 2020
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